Mais brasileiros no pré-sal

26/08/2011

As brasileiras Queiroz Galvão Exploração & Produção (QGEP) e Barra Energia acertaram, em junho, seu ingresso na região a partir de um farm-in com a Shell, no bloco BM-S-8, localizado na área norte do cluster, onde foi desco­berto o prospecto de Bem-Te-Vi. Ca­da uma ficou com 10% da área.

Negociada desde dezembro do ano passado, a operação foi o maior farm-in exploratório isolado já firmado no país. As duas petroleiras desembolsaram, juntas, US$ 350 milhões, o maior valor já pago por um ativo exploratório no Brasil. Diante do preço pago, o valor atual do BM-S-8 é de US$ 1,75 bilhão.

A saída da Shell do BM-S-8, an­tecipada pela Brasil Energia em se­tembro de 2010, foi bastante con-corrida. A oferta também atraiu BP, OGX, YXC, Sinopec e Statoil. A in­tenção original da Shell era vender sua parte no bloco num pacote que incluiria os campos de Atlanta e Oli­va, em Santos, e as áreas explora­tórias BM-S-45 (S-M-322), em San­tos, e BM-ES-28, na Bacia do Espírito Santo, devolvida recentemente à ANP. O desenrolar das conversas, porém, forçou a separação.

A atratividade do BM-S-8 estava diretamente ligada ao fato de o blo­co estar no cluster. Também pesou o fato de não ter havido licitações nos últimos anos – ou seja, as novas oportunidades de negócios es­tão limitadas a operações de venda e troca de ativos entre as empresas. E não fosse o risco exploratório do projeto, mesmo com a descoberta de Bem-Te-Vi, a disputa teria sido ainda maior assim como o valor pago pela participação de 20% no ativo.

Com 2.449 km2, o BM-S-8 é o maior bloco de Santos, embora não seja prioridade para a Petro­bras, que opera a área. Aposta­se na existência de mais prospec­tos. No momento, a petroleira perfura um poço exploratório na região com a Sevan Driller, volta­do ao prospecto batizado Biguá, na parte central do bloco e ao norte de Bem-Te-Vi.

Para cumprir o programa explo­ratório acordado para a área será preciso perfurar ainda mais um poço firme no fim do ano, em locação a ser definida em função do resultado alcançado em Biguá. A expectativa é de que o poço de Biguá seja concluͭdo também até o fim do ano.

Sem o BM-S-8, a Shell fica fora do cluster, ajustando sua carteira ao processo de venda de ativos no mundo. Nos últimos tempos, a companhia vem se desfazendo de projetos e reduzindo partici­pações em todo o mundo, o que inclui o farm-out de 20% no blo­co BM-S-54, firmado com a To­tal, e a saída do bloco BM-ES-28, concretizadas no início do ano.

Barra Energia em águas profundas

O ingresso no cluster de Santos traz um novo parâmetro para a Barra Energia . Pouco mais de um ano após ser criada como uma companhia de ativos terrestres e águas rasas, a petro­leira brasileira já adianta que projetos onshore não são mais prioridade pa­ra o grupo, e que o novo foco estra­tégico passa a ser águas profundas do pós-sal e do pré-sal.

“O BM-S-8 é extremamente sig­nificativo para nós e passou a ser um bom balizador para o grupo. Não quer dizer que não iremos mais analisar projetos de terra e de águas rasas e investir neles, mas isso não é mais prioridade, pois ajustamos nossa estratégia à nossa estrutura de capital”, avalia Renato Bertani, diretor executivo da Barra.

Desde o primeiro semestre, a pe­troleira, cujo capital inicial era de US$ 500 milhões, conta com um capi­tal total de US$ 1,2 bilhão. O aporte vem de dois grandes fundos privados internacionais, o First Reserve e o Ri­verstone, e mais outros 20 pequenos grupos investidores estrangeiros.

Os planos da empresa são de am­pliar a carteira, sempre exclusivamen­te no Brasil. “Devemos investir cerca de US$ 30 milhões no BM-S-8 até o fim do ano, e ainda temos cerca de US$ 1 bilhão para investir em novos projetos”, antecipa João Carlos De Luca, diretor presidente da petroleira.

Para De Luca, o ingresso no cluster demonstra o interesse do grupo em investir em risco. “O BM­S-8 tem a descoberta de Bem-Te-Vi e mais umas quatro estruturas im­portantes para serem analisadas, mas há um grande risco exploratírio pela frente, que reforça o apeti­te da Barra Energia em apostar no Brasil e nossa visão de longo pra­zo”, reforça de Luca.

A busca por um ativo no país teve início em 2010, logo após a criação da petroleira. Antes do BM-S-8, foram examinadas várias outras oportunida­des. “Nossa equipe trabalhou exaus­tivamente nos últimos anos analisan­do as bacias brasileiras. Chegamos a avaliar uma dúzia de projetos. Sem­pre que havia um ativo sendo oferta­do estávamos lá”, lembra Bertani.

Entretanto, os projetos avaliados ao longo do último ano não se en­caixaram na estratégia da compa­nhia. Na maioria dos casos, os ati­vos não detinham porte exploratírio condizente com as expectativas do grupo, apresentando risco explo­ratório muito alto ou não fazendo sentido econômico.

Apostando na vantagem competiti­va do mapeamento das bacias brasilei­ras, a Barra investiu US$ 35 milhões nos últimos anos na compra de dados sís­micos e de poços. As avaliações já feitas apontaram, segundo César Cainelli, di­retor de E&P; do grupo, para a existência de quatro áreas foco em Campos e San­tos – mantidas, é claro a sete chaves.

O grupo tem planos de se firmar como operador. Enquanto isso não acontece, a Barra pretende ser um sócio ativo. “Queremos trazer contri­buições técnicas, não ser apenas um sócio investidor”, afirma De Luca.

A Barra Energia conta hoje com uma equipe de 20 pessoas. Até o fim do ano, a petroleira deverá contratar mais dez pessoas, no mínimo.